Cenários dos mais espantosos que envergonham a própria perplexidade quando ultrapassada por protagonistas do vale tudo a fim de darem aos mais desprevenidos o incentivo de continuarem a bater palmas aos rapa-tachos que ensaiam, por trás do pano, antes que este se levante para o começo do espectáculo; foi, alegoricamente falando, ao que assisti hoje.
É demasiado, o espírito humano, dificilmente aguenta a carga desses iluminados pelos falsos holofotes que o progresso e as novas tecnologias teimam em fazer incidir, enfaticamente, sobre as suas imagens, sem se aperceberem do quanto há de pernicioso nesse desmesurado enfoque. Que esperar? é que essas caras, essas personalidades iluminadas, tão fortemente, pelos meios supra referenciados, acabem, por encandeados, patologicamente cegos, e que, por isso, não se apercebam do ridículo em que se tornam e das nefastas consequências que vão causar ao espírito do cidadão que não pagou para o espectáculo que, inopinadamente, lhes oferecem.
Vem este arrazoado, talvez um pouco prolixo, a propósito de dar conta da hipócrita e relutante farsa que os artistas, talvez amadores, pois se fossem profissionais teriam o cuidado de dar um ar de aparente seriedade à peça que, a 1 de Julho, exibiram, por volta das 21h15, perante os ecrans da Sic.
Era a apresentação de um livro da autoria da ex-ministra da Educação, Maria Lourdes Rodrigues. Na oportunidade, sem ponta de ironia, faço votos de que tenha, como escritora,um êxito que consiga um nível em moldes de se conjecturar a sua passagem pela pasta da educação como um «desastre» resultante de uma acidental disfunção. Retomando, o ambiente teatral da referida apresentação ao livro da senhora ex-ministra, devo dizer que se não tivesse visto não acreditava; como pode haver pessoas que se prestam a dar cunhos tão reverenciais a outras que conseguiram confiscar e espoliar o pouco de bom que havia no ensino! A apologia dos feitos da ex-ministra desenhavam-se no rosto do protagonista em êxtase, tal era o fulgor e os fluxos de gratidão que esse mesmo rosto irradiava.
A imagem, de tão extremosa, faz-me lembrar aquela que, por vezes, se descortina num filho adolescente, babadinho, a contar aos colegas de turma as proezas de seu pai. Claro está que a tal porte teriam de ser emprestadas as mais aduladoras quanto falaciosas expressões. A senhora foi uma ministra que muito contribuiu para o engrandecimento do ensino e da educação. -.Tive muito orgulho em tê-la a trabalhar comigo, disse-lhe o Primeiro ministo. Para completar toda esta solenidade, o mesmo fez-se acompanhar de vários ministros do Governo, o que não é para admirar, eram todos advogados em causa própria. Não vale a pena dizer mais nada.
Este caso julgava-o impensável. Como é possível violentar tantas consciências.
A racionalidade, o ser pensante, exige que se ponha limites à desfaçatez.
Afonso Costa
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quinta-feira, 1 de julho de 2010
Dedicado ao Pedro
Não há regra sem excepção
E as conclusões estão certas
Só tenho um neto varão
De resto são tudo netas
Deviam ser talvez onze e seis
Da hora me lembro mal,
Lembro ser dia de Reis
Quando saíste do hospital.
Pequei-te entre os braços
Agarrou-te meu pensamento
Que vem seguindo teus passos
No teu caminho do tempo.
Desde muito pequeno
Que tua aflição vinha
Alterar teu ar sereno
Ao gritares a comidinha
Nas praias de Santo André
Tu e teu Carlitos no mar
Aproveitavam a maré
Para os peixes espreitar.
Não posso estranhar
Dado que estava à vista
Que tão dedicado ao mar
Tinhas que dar em surfista.
Nesse desporto és amestrado
Mas na bola teu pé desafina
Por isso chutas para o lado
As ordens da Catarina.
Só com uma expressão
Vi que tua alma se filia
Em teres no coração
A sede da tua família.
É tão grande o teu zelo
Que me deste a descoberta
Como arrumar o cabelo
Para tapar a careca.
Arriscas nas ondas do mar
Em terra a dos meliantes
Nestas não te vais afogar
Teus avós estão vigilantes.
Afonso Costa
E as conclusões estão certas
Só tenho um neto varão
De resto são tudo netas
Deviam ser talvez onze e seis
Da hora me lembro mal,
Lembro ser dia de Reis
Quando saíste do hospital.
Pequei-te entre os braços
Agarrou-te meu pensamento
Que vem seguindo teus passos
No teu caminho do tempo.
Desde muito pequeno
Que tua aflição vinha
Alterar teu ar sereno
Ao gritares a comidinha
Nas praias de Santo André
Tu e teu Carlitos no mar
Aproveitavam a maré
Para os peixes espreitar.
Não posso estranhar
Dado que estava à vista
Que tão dedicado ao mar
Tinhas que dar em surfista.
Nesse desporto és amestrado
Mas na bola teu pé desafina
Por isso chutas para o lado
As ordens da Catarina.
Só com uma expressão
Vi que tua alma se filia
Em teres no coração
A sede da tua família.
É tão grande o teu zelo
Que me deste a descoberta
Como arrumar o cabelo
Para tapar a careca.
Arriscas nas ondas do mar
Em terra a dos meliantes
Nestas não te vais afogar
Teus avós estão vigilantes.
Afonso Costa
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